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Fonte: Portal Nacional de Seguros
Por Roberto Monteiro
A falta de peças originais de reposição não é uma questão nova no Brasil. Basta ver os inúmeros casos de consumidores que foram privados de utilizar seus veículos após uma colisão, desgaste natural ou defeito de fabricação de algum componente. Isso porque, muitas vezes, a peça nova, que deveria substituir a anterior, não se encontra disponível no momento desejado.
Se engana quem pensa que somente proprietários de veículos importados correm esse risco. Nos últimos anos essa questão se agravou. Os recordes sobre recordes de produção e venda da indústria automobilística demandam cada vez mais produtos de sua rede de suprimento de peças em escalas. E seus fornecedores nem sempre estão preparados para atender.
O mercado de reposição funciona como uma espécie de válvula de escape dos fornecedores de montadoras. Seu nível de atuação depende da demanda dessas. Se essa demanda cai, como ocorreu ao final de 2008 e início de 2009, os fornecedores direcionam sua produção para o mercado de reposição, conhecido como aftermarket. Já se a demanda aumenta, como ocorrido no período pré e pós-crise, o aftermarket sofre com a falta de abastecimento por parte desses fornecedores que têm como prioridade o fornecimento às montadoras.
Quem não conhece o forte, complexo e dinâmico mercado de autopeças brasileiro não sabe que não há somente peças de reposição produzidas pelas montadoras ou por seus fornecedores. Há milhares de indústrias que atuam exclusivamente no aftermarket.
O parque industrial automotivo brasileiro, inclusive, surgiu de empresas como esses fabricantes considerados "independentes", que aos poucos foram se tornando fornecedores de montadoras ou sendo vendidos para grandes grupos internacionais que possuem contratos de fornecimento com as montadoras em escala mundial. Esses últimos são conhecidos como "sistemistas". A participação de mercado dos fabricantes independentes, portanto, depende da conjuntura do negócio de veículos novos.
Se tomarmos como exemplo o contexto das seguradoras, podemos afirmar que há muito elas sentem os problemas decorrentes dos gargalos na reposição de peças. Mas, com o "boom" na produção do setor automobilístico, a questão se agravou ainda mais. Elas atentam para a falta de peças de composição visual como para-choque, capô, para-lamas, além de componentes elétricos. Fica claro que não é possível abastecer o mercado de reposição sem a atuação das fabricantes independentes, que oferecem essas peças com a devida garantia e identificação de procedência.
As independentes seguem padrões de qualidade e disponibilizam produtos a custos mais acessíveis, além de garantirem a reposição de peças de automóveis mais antigos, segmento que os fornecedores das montadoras, muitas vezes, não conseguem mais abastecer porque deixaram de fabricar determinados tipos de peças.
Se fosse regulamentado aquilo que o artigo 21 do Código de Defesa do Consumidor já prevê, o uso de peças novas, não originais e que possuam as mesmas características técnicas das originais na reparação de sinistros, justamente as provenientes dos fabricantes independentes, haveriam ao menos dois grandes benefícios: a solução de grande parte da demora no conserto e a redução do prêmio de seguro o que traria muitos milhões de proprietários de veículos que atualmente não tem acesso ao seguro de seus bens devido ao alto preço das apólices. Os fabricantes independentes podem suprir boa parte da demanda do setor de reposição.
Dessa maneira seria possível viabilizar o tão desejado seguro popular. Os valores do seguro se tornariam mais acessíveis e os consumidores poderiam ser melhor atendidos, além de terem garantido seu direito à liberdade de escolha no momento do conserto de seus automóveis.
São, portanto, várias as razões para a regulamentação do uso de peças similares, de fabricação independente. Sem contar, o quão saudável é, para o bolso do consumidor, a prática da livre concorrência.
* Roberto Monteiro é superintendente geral da ANFAPE - Associação Nacional dos Fabricantes de Autopeças.
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