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Fonte: Portal Nacional de Seguros
Manifestações no Oriente Médio trazem à tona a necessidade de empresários brasileiros protegerem seus negócios no exterior.
Por Carol Rodrigues
Uma onda de protestos invadiu o Oriente Médio no final de 2010, que passou a escrever uma nova página em sua história. Em alguns países como Arábia Saudita e Síria, de forma moderada, mas na Tunísia a onda de manifestações populares culminou na derrubada do presidente Zine El Abidine Ben Ali. Impulsionados pela renúncia do governante tunisiano, os protestos ganharam força no Egito, cujo desfecho foi o encerramento dos 30 anos de ditadura do governo Hosni Mubarak, em fevereiro.
Mesmo o Oriente Médio sendo uma região tradicionalmente conturbada e mantida em estado de atenção, o Egito, importante centro político e econômico e aliado dos Estados Unidos, era mantido fora da zona de alerta de risco. Talvez isso tenha sido fator preponderante para ser um poucos países da região a receber a avaliação de Risco Político e de Segurança ‘Baixo", conforme o Risk Map 2010, levantamento realizado anualmente pela especialista em mapeamento de riscos Control Risks.
Para Keith Martin, diretor de Comércio e Investimento Internacional da Aon Brasil, a crise no Egito serve de exemplo para os investidores considerarem os riscos de várias formas. "Estamos vendo a dificuldade de companhias tirarem seus funcionários do país porque não avaliaram um plano de evacuação e continuidade do negócio. Este fato é mais uma amostra de como os casos de violência política podem ocorrer sem aviso prévio em países anteriormente considerados relativamente estáveis", observa.
O executivo explica que a queda de governo, ou possível queda, é um requisito para um país ser inserido em um grau elevado de risco, juntamente com uma série de fatores baseados em critérios como inconversibilidade e transferência de moeda; greves, distúrbios e comoção civil; guerra; expropriação e descumprimento contratual por governos; não-pagamento soberano; interferência política; interrupção de cadeia de suprimento e risco legal e regulatório.
"A instabilidade política do Egito está levando as multinacionais a reavaliarem a adequação de suas coberturas de risco em mercados emergentes ditatoriais e com histórico de grande desigualdade social. Os prejuízos com os protestos devem passar de US$ 1 bilhão no Egito, sem contar os prejuízos a longo prazo relacionados ao mercado de petróleo e ao transporte marítimo pelo Canal de Suez", assinala Martin.
Relações crescentes
Segundo dados da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, que representa 22 países, as exportações brasileiras para os países árabes totalizaram US$ 12,57 bilhões em 2010, um crescimento de 34% em relação ao ano anterior. Nas operações, quatro países se destacam como principais destinos: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Argélia, responsáveis por cerca de US$ 7,75 bilhões.
Mesmo diante do cenário complexo na região, a organização mantém expectativa de crescimento em torno de 12% a 15% nos negócios em 2011. "As perspectivas para este ano são excelentes. Acreditamos que para 2011 teremos um incremento entre 12% a 15% nas relações comerciais entre brasileiros e árabes e vemos um potencial enorme em diversos segmentos da economia", comenta o presidente da Câmara, Salim Taufic Schahin.
Para evitar impactos nos negócios surge a importância de uma modalidade de seguro denominada Riscos Políticos, que cobre investimentos de companhias multinacionais em outros países.
Risco coberto
Segundo Charles de Barros Silva, gerente operacional da Unificado Corretora de Seguros, a necessidade da análise de risco político por parte das empresas brasileiras teve início na última década com avanço das multinacionais. "O evento no Egito acendeu uma luz vermelha, em especial porque o regime já existia há 30 anos apoiado por grandes potências".
O corretor destaca que já há algum tempo o mercado brasileiro atua com cláusulas complementares de seguro de Risco Político dentro do Seguro de Crédito à Exportação. No entanto, a apólice de seguro de Risco Político é uma novidade no país e teve início há cerca de dois anos com a operação da Zurich Seguros. "O contrato específico de Riscos Políticos tem suas peculiaridades. O evento é o dano à propriedade e também a perda financeira motivada por ato governamental. O principal risco coberto é o de expropriação. Até mesmo o impedimento da operação em função do bloqueio de estradas pode ser considerado sinistro coberto", explica, ao lembrar que o prazo de cobertura do seguro pode ser longo e chegar a 15 anos.
Para ele, o papel do corretor nesse contexto continua sendo o de conselheiro. "É o de ter uma relação com o cliente em que cada passo do planejamento estratégico da companhia, em especial os investimentos diretos no exterior, passe antes por uma avaliação dos riscos para a decisão de transferência. Ter acesso ao mercado internacional é básico. No meio de seguros tudo gira em torno de boa qualidade de informações e para a mensuração do Risco Político é imprescindível".
Todo o globo
A Zurich aproveita o alarme soado no Egito para informar a existência do seguro de Riscos Políticos aos seus clientes. "Embora não tenhamos empresas brasileiras seguradas com operação lá, sabemos que companhias de origem americana que atuam no território têm essa cobertura e estão prevenidas com toda a violência política", diz Vinicius Jorge, gerente de Linhas Financeiras.
Ele explica que as consultas nesta modalidade de seguro são mais detalhadas e levam mais tempo quando comparadas aos seguros de varejo. "Nesta modalidade, a análise da seguradora para oferecer ou não a proposta leva em torno de 45 dias. Temos feito um trabalho junto às grandes empresas brasileiras para mapear os riscos onde elas estão instaladas para conhecer os riscos inerentes às operações".
No produto, a empresa segurada pode contratar uma única apólice que protege seus bens, instalações e suas transações em diferentes países. A apólice oferece cobertura para os riscos de expropriação, violência política, inclusive danos aos bens da empresa segurada provocados por mobilizações civis de caráter político; e inconvertibilidade de moeda, quando a empresa segurada se vê impossibilitada em realizar remessas financeiras ao país de origem por restrições impostas pela autoridade estrangeira.
"Quando fazemos a avaliação do risco para contratação do seguro, olhamos para todos os lugares no mundo onde ela tem operação e, dentro do mapeamento da própria seguradora existem os lugares mais críticos de risco, ou seja, onde a violência política e terrorismo são mais fortes; em outros, é uma questão mais econômica", explica o gerente da Zurich.
Ele ainda afirma que mesmo um país no auge de uma crise política, caso do Egito, não significa que uma seguradora não oferecerá a cobertura. "Em períodos como esse o preço é elevado, em relação a outros momentos, mas isso é diluído de forma que possa ser oferecida uma proposta ao cliente".
A nova modalidade de seguro no Brasil é inclusive uma das apostas da Zurich. Segundo Vinicius, a seguradora pretende atender os maiores clientes já na carteira da companhia. "A expectativa esse ano é a de atingirmos US$ 8 milhões em prêmios em 2011 somente com a venda desse seguro", diz.
BOX: Estudo aponta aumento do risco em 2011
O 18º Mapa de Risco Político anual da Aon Risk Solutions sinaliza aumento do nível de risco político em diversos países. O Mapa divulgado anualmente classifica os países em uma escala de seis pontos que variam de Baixo a Muito Alto. Dezenove países foram rebaixados no mapa de 2011, enquanto apenas 11 países ascenderam.
O relatório de 2011 aponta os quatro países árabes que mais recebem produtos brasileiros com grau de risco, sendo Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes com Risco Médio e Argélia com nível Médio Alto.
O mapa ainda destaca a emergência de vários mercados fronteiriços na África, como Angola, Chade e Nigéria, onde ocorrem, cada vez mais, investimentos internacionais, o que gera a necessidade de cobertura de seguro de risco político.
Segundo Keith Martin, da Aon Brasil, os riscos para empresas brasileiras que investem no exterior e exportam são cada vez mais complexos, até em países desenvolvidos. "Antigamente, muitos investidores olharam somente o ‘risco país", se limitando à possibilidade de um default soberano, de guerra ou de expropriação pelo governo federal. Hoje em dia, temos riscos de quebra de contrato por governos estaduais/provinciais e municipais ou de empresas estatais, como vimos na Argentina; riscos de mudanças regulatórias, inclusive na União Europeia e nos EUA; aplicação arbitrária de leis e decisões judiciais, etc. Muitas vezes, a resposta não se encontra em apólices de seguros, mas numa análise prévia holística dos riscos e numa estratégia abrangente de mitigação dos riscos". (Revista Cobertura - Edição 111)
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