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Fonte: Economia - iG
Embora a maioria das pessoas que negociam ações em casa imagine suas ordens zunindo do corretor para uma das bolsas de valores dos Estados Unidos, quase nenhuma das transações chega perto desses mercados públicos.
Na verdade, a maioria das negociações realizada por corretores online, como a TD Ameritrade e a Scottrade, é vendida a firmas de Wall Street, que as acumulam e negociam contra dezenas de milhões dessas ações por dia, em vez de enviá-las a uma bolsa regulamentada, como a Nasdaq ou a Bolsa de Valores da Nova York. Então, as firmas de Wall Street rapidamente se livram delas e embolsam um lucro fácil porque têm mais recursos e conhecimento do mercado do que os investidores caseiros.
A negociação acontece longe dos olhos dos órgãos reguladores e do público em geral no que é conhecido como mercado cinza, o qual ganhou força nos últimos anos e, gradualmente, vem comendo uma parcela das transações acionárias que acontecem nas bolsas públicas. Agora, no entanto, as bolsas estão contra-atacando, pensando em criar um mercado cinza só delas.
A NYSE Euronext, um grupo de bolsas de valores da Europa e dos Estados Unidos, está solicitando aos órgãos reguladores a aprovação de uma nova plataforma que atrairia ordens de investidores comuns para, a seguir, desviá-los da bolsa normal visando obter um preço melhor ao investidor. A Nasdaq e a bolsa de valores Direct Edge afirmaram estar desenvolvendo planos similares.
A proposta parece um ajuste técnico para ajudar os investidores comuns. Porém, ela se tornou a linha de frente numa batalha sobre como as bolsas de valores norte-americanas deveriam ser, depois que quase uma década de fragmentação resultou em que mais de um terço de todas as transações acionárias ocorrem no mercado cinza, contra 15% em 2008, de acordo com a corretora Rosenblatt Securities.
No passado, as bolsas pressionavam os órgãos reguladores a forçar os mercados cinza a se tornarem mais iluminados, mas James Allen, chefe de política dos mercados de capital do CFA Institute, disse que com as novas propostas as bolsas estão reconhecendo "que se não pode vencê-los, junte-se a eles".
Com isso, elas estão prestes a se afastar da ideia segundo a qual as bolsas de valores são lugares onde todos os investidores se reúnem às claras e em pé de igualdade.
"Isso poderia mudar para sempre o que é uma bolsa e como ela atende facções diferentes de investidores", disse Christopher Nagy, fundador da KOR Trading, consultora de bolsas e corretoras. "Em essência, a proposta diz que talvez nem todas as pessoas sejam iguais."
Os órgãos reguladores tinham até 7 de julho para decidir a respeito da proposta da Bolsa de Valores de Nova York e não existe certeza se ela será aprovada. Contudo, pessoas bem informadas do setor afirmam que, mesmo se o pedido for rejeitado, os planos estão forçando os reguladores a decidir como vão encarar a ampla transformação das bolsas de valores norte-americanas dos últimos anos.
Desde que uma alteração reguladora foi realizada em 2007, a nação passou de duas grandes bolsas a 13 bolsas públicas de valores, além de dezenas de plataformas para negociação nas quais as ações são negociadas longe dos olhos do público em geral. Os reguladores não impediram tais mudanças e expressaram desconforto com a complexa estrutura do mercado atual e sua incerteza em como lidar com isso.
Duncan L. Niederauer, CEO da NYSE Euronext, declarou durante audiência no Congresso, em junho, que os operadores das plataformas de negociação não ligadas à bolsa estão sob uma supervisão menos severa do que as bolsas. Segundo ele, os reguladores deveriam robustecer as regras sobre plataformas do mercado cinza ou deixar as bolsas mais parecidas com tais plataformas.
A concorrência entre as plataformas levou à redução do custo da negociação para investidores de todos os tipos. Contudo, a fragmentação dos mercados também foi culpada por deixar a infraestrutura do mercado mais propensa ao colapso financeiro, como no caso da quebra relâmpago de maio de 2010, quando o preço das ações desabou quase 10% em 15 minutos. O fato se deu novamente quando a bolsa Nasdaq estragou o lançamento de ações do Facebook, em maio. A ascensão do mercado cinza também criou temores quanto ao fato de o preço dos papéis poder ser manipulado mais facilmente.
A prática de desviar o varejo de ações dos mercados públicos e levá-lo a empresas financeiras se chama "internalização". Bernard L. Madoff recebeu o crédito por inventar essa prática no começo da década de 1990 por meio de sua corretora legalizada, que ficava num andar diferente do esquema de investimento Ponzi.
Madoff percebeu que sua empresa tinha indicações melhores do movimento das bolsas do que os investidores de varejo. Se seus corretores percebessem que ações de determinada empresa estivessem prestes a subir, eles poderiam comprá-las rapidamente de um corretor de varejo oferecendo os papéis por um preço levemente mais baixo e, a seguir, os vendendo imediatamente pelo preço mais alto. O lucro justificava pagar a corretores de varejo pelo serviço.
A prática ganhou força depois que uma série de mudanças regulatórias ocorridas ao longo da última década facilitou as transações longe das bolsas e encareceu a negociação dentro delas. Hoje em dia, quatro empresas - Knight Capital Group, UBS, Citigroup e Citadel - atuam pagando a corretoras de varejos e negociando contra elas. De acordo com especialistas do setor, tais firmas geralmente pagam às corretoras 15 centavos de dólar por lote de cem ações contra as quais devem negociar. Os "internalizadores" foram afetados pela oferta pública inicial do Facebook. Eles pagaram para negociar contra todos os investidores de varejo interessados nos papéis do Facebook, mas quando a bolsa Nasdaq teve problemas assim que foi aberta, eles ficaram com as ações. A Knight Capital disse ter perdido cerca de US$ 35 milhões com o incidente.
Para críticos, a internalização é um problema porque os pagamentos recebidos pelas corretoras não são repassados aos clientes. Os "internalizadores" também criaram um incentivo para os corretores varejistas fazerem pedidos nos locais onde poderão obter o maior pagamento e não na plataforma de negócios que pague o melhor preço.
Os corretores de varejo sustentam que os "internalizadores" lhes permitem obter a melhor e mais rápida execução para os clientes.
As bolsas lutaram para concorrer com os "internalizadores" porque não podem negociar por outro preço além do listado publicamente, isto é, o valor visto pelos investidores comuns ao examinar os preços das ações online. As empresas de internalização e outros operadores do mercado cinza podem oferecer a apresentação de um preço melhor, mesmo que seja apenas uma fração de centavo.
Os "internalizadores" somente executarão a transação se a informação coletada no mercado lhes garantir que o mercado está prestes a se mover a seu favor, permitindo-lhes concluir rapidamente a negociação. Caso os "internalizadores" não desejem negociar contra o pedido, geralmente o passam a outras corretoras e pools do mercado cinza. Somente os pedidos mais difíceis do varejo - chamado pelas bolsas de "fluxo de ordem tóxico" - chegam às bolsas.
O plano da NYSE Euronext propunha colocar as ordens no varejo numa área isolada na qual as empresas registradas poderiam oferecer negociações a um preço levemente melhor do que o listado. As ordens de compra e venda não seriam visíveis ao público.
A Nasdaq não revelou seu plano, mas, segundo pessoas que o conhecem, ele seria parecido, envolvendo um minileilão sempre que chegasse uma ordem no varejo.
Algumas empresas de internalização exprimiram oposição aos planos das bolsas de valores, mas as propostas também receberam críticas dos observadores do mercado, preocupados com a direção tomada pelo setor.
Allen, do CFA Institute, que representa os investidores, disse entender a necessidade de as bolsas serem capazes de competir, mas não as quer acelerando o mercado na direção do cinza.
"Seja qual for o desfecho, queremos que seja mais transparente e não o contrário", ele garantiu.
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